10.09.2006

COMA I

De repente, acordei. Os olhos pesavam como culpa. Havia um tubo na minha boca e, estranho, minha mão não saia do lugar. As duas estavam imóveis, como os pés, as pernas, tudo... Tentei falar. Inútil. O tubo não deixou...

Um cara do meu lado me dizia: Calma, o pior já passou!!!!!
Nem imaginava o que poderia ser pior do que acordar com um tubo na boca e imóvel e desconcertado. Meu Deus, o cara é meu irmão. Fernando. Médico. O pior havia passado. Como? Não, coma. E foi induzido...

Lutei bravamente com as máquinas. Foi para viver, me disseram. Tiveram que me dar curare para que eu parasse de lutar. E, claro, fiquei imóvel. Programa de índio ficar imóvel, abatido, desacordado...

Não vi luz alguma.

Tive pesadelos. Nos primeiros, muitas pessoas que conheci, que amo, que amava, haviam morrido. Só eu é que sobrava. Mas, na verdade, ninguém havia morrido. Só eu que quase... Estava lutando.

Fui ao Rio em um pesadelo. Ao menos um pesadelo com vista para o mar...
Acho, agora, que estava fazendo o inventário de uma vida que não havia vivido. Mas ela me pareceu real naquela UTI que, ao contrário, a mim parecia irreal...

Foram muitos sonhos. E eles se misturavam uns nos outros. O cérebro brincava comigo, fazendo nós no que parecia ser o mesmo destino.

Havia algo de patético. Sonhei que estava fazendo um teste para uma minisérie. Uma minisérie ao estilo ER. E eu, imagine, era médico. A história sempre terminava com alguém tentando me matar e eu, por milagre, sobrevivia, mas só depois de morrer. Tudo se passava como se, ao fim e ao cabo, alguém gritasse um CORTA!!!! E o elenco recomeçava a cena...

Havia sangue. Havia romance. Eu ainda fumava nos meus sonhos. Havia perseguição. Havia intriga... Era quase como um local de trabalho. E havia mort....e. Eu morria e, por encanto, tudo recomeçava... Mas, no recomeço, o sangue seria outro; a peseguição, nova; a intriga, manjada; mas o romance não mudava. Fui fiel até em meus pesadelos. E nem nos pesadelos ele tornou-se mesmo um romance... Era uma expectativa, uma luta, uma razão, um pesadelo, uma culpa, uma ânsia, sei lá.

Mas, claro, não havia nada disso. Eram pesadelos.

Pesadelos coloridos, globais, alucinados. Era um efeito dos remédios, me garantiram depois, embora eu não saiba até agora que remédios tomei... Devo ter tomado todos... Já me disseram milhares de nomes. Não faço questão de lembrar.