Quando sai da Folha e fui para o Unibanco sofri, digamos, um choque de gestão.
Num jornal, o trabalho começa e acaba no mesmo dia. Tem começo, meio e fim (fechamento). No banco, os jobs podem demorar minutos, meses, anos, séculos... É o tempo que acaba. É a jornada daquele dia que se encerra... E basta meio segundo para o andar esvaziar...
Ser assessor é ser outra coisa, porque não é jornalismo. Gostei de ser assessor. Me fez enxergar coisas que eu, num jornal, não via. Coisas como o produto, a imagem corporativa, o negócio. Porém, sempre me incomodou a relação que se tinha com o trabalho. A maioria dos meus colegas punha o pé na rua e virava uma outra pessoa. A vida estava lá fora... Apenas lá fora.
Essa conta nunca fechou na minha cabeça. Como é que mais da metade do meu tempo ACORDADO de vida não pode ser considerado vida? Vida é só o que sobra? Vida é quase que uma espécie de hobby, uma coisa, que fabrica prazer instantâneo, que se pratica nas horas vagas... Bem, enfim, não me entra na cabeça essa coisa de que a vida e o prazer passam ao largo do trabalho...
Mas, hoje, acho, faço parte de uma minoria. Hoje, acho, o choque de gestão seria menor. Muito menor. A idéia de que a Vida está lá fora (e apenas lá fora) ganhou as redações. Todas (ou quase) as redações. Alguns consideram um avanço... Sei, não...
Alguns acham que o dever foi cumprido quando se ouviu os dois lados. Alguns podem ir para casa, tranquilos, informando, por exemplo, que entre 200 (números da polícia) e 200 mil (números do sindicato) haviam participado de uma passeata... O leitor fica em dúvida, dane-se, porque essa suposta isenção desobriga o jornalista de informar o que viu (ele estava lá, não é mesmo)...
Agora, se jornalista isento não diz o que viu, ele informa, sim, o que ouviu. Usa muitas aspas. É quase um gravador, só que um pouquinho mais caro... Com o tempo, e a tecnologia tornando a notícia uma commodity, o jornalista será um gravador menos caro... Mas, enfim, aspas são fundamentais. Não existe, hoje, jornalismo sem aspas.
E falou, meu caro, tá na internet. Falou, vira notícia. Jornalista é assim: implacável. E delegados "condenam" filhos esfaqueados de pais mortos esfaqueados... Nada como o poder da isenção!!! Foi, afinal, o delegado que disse, para ser desdito por outro tira. Nada mais cruel do que isenção jornalística... Nada mais invasivo e irresponsável.
Lamentamos, os jornalistas, estes enganos. Quando, de fato, não são enganos. São o jeito de operar das redações, da mídia declaratória, das falas que substituem fatos...
E eu acho que isso tem a ver com esse jeito MUDERNO de enxergar o trabalho. Quando se pensa, cheira e sente que a vida está Só lá fora, o que resta fazer quando se está ainda dentro? Pensar? Descobrir? Reportar? Não. O trabalho é só o de encaixar as informações que surgem na tela dentro das regras da casa...
A curiosidade está morta. A curiosidade foi substituída pelo procedimento, pela burocracia. E a melhor forma de matar a curiosidade e o prazer de descobrir o que se passa na rua, na cidade, no País, na economia é dizer que isso se fará sem prazer, sem correr riscos, sem tesão, já que, afinal, a vida está só lá fora...
11.22.2006
Assinar:
Postagens (Atom)