1.10.2007

Pesadelos

Chovia. Lembro que o ônibus cortava poças. Lembro que o ônibus, por milagre, virava um carro. Um táxi, talvez... Lembro que passei na mesma praça várias vezes, e que falava do Rio, dos meus parentes, primos, tios, Carnavais...

Lembro de mulheres bonitas, vestidas como na década de 40, 50... Mulheres que teriam feito época, estourando corações ao mostrar canelas e insinuar as coxas...

Lembro que contava a história delas, dessas mulheres, que haviam marcado uma vida que não era minha. Era de alguém que me ouvia, que estava ali comigo, andando no carro...

Havia muita água. Água e lembranças que, agora, juro, não sei de quem seriam. Mas essas memórias, por instantes, pareciam fazer como que um inventário de uma vida que não vivi para alguém que me parecia conhecido, familiar. As memórias eram em preto e branco, como fotos antigas. Havia uma saudade dessa vida que não sei quem viveu, havia uma nostalgia no que eu dizia, mas que não lembro bem o que significava...

Não sei o motivo de o táxi - definitivamente, era uma táxi antigo com aquela lataria inquebrável - continuar a circular a praça, indefinidamente. Lembro que a pessoa que me acompanhava me dizia para continuar a falar daquela vida que eu não vivi. E eu lembrava de mais coisas. Lembrava de imagens desconcertantes. Lembrava de corpos deitados em camas, vestidos rodados, salões de baile, Copacabana Palace, chuva paulistana em cena carioca, poças de água, o mar batendo ali pertinho...

O táxi parou. Quem me acompanhava desceu, entrou no prédio, enquanto nível de água subia ao redor do carro, angustiosamente. Eu fiquei esperando por algum sinal, que não veio...

A água virou um rio... Batia, em ondas, na lataria... E o táxi voltou a andar... Eu continuava ali, mas já não dizia palavra... Estava sendo levado para outro prédio que, estranhamente, brotou do nada na mesma praça diante dos meus olhos...

A porta se abriu e eu entrei. Um casal, que me pareceu igualmente familiar, falava, enquanto uma criança corria pela sala... Homem e mulher discutiam entyre si e, ao mesmo tempo, falavam para mim e olhavam para mim. Mas eu não os ouvia... Acho que falavam em português, mas eu simplesmente não ouvia nada. E eles falavam comigo em, sei lá porquê, banho... Alguém, meu Deus, ia me dar um banho?

Os dois, falando pelos cotovelos, saíram daquela pequena sala. Era um hall de entrada, que dava para duas escadas em caracol. O pé direito era altíssimo (como se nunca chegasse ao teto, que não se via). A porta era de vidro, com uma pequena cortina branca, que amarelava...

Fiquei ali, com a criança pulando ao meu redor. Ela tinha uma espécie de ioio na mão. E, por encanto, um fio do ioio prendeu da minha boca. O menino, malvado como qualquer menino, passou o barbante pela maçaneta da porta e, agora, se divertia puxando e soltando a corda. O movimento das mãos fazia minha língua tampar e destampar a entrada de ar. Eu me sentia sufocando, literalmente.

O casal voltou ao hall. Não sei como, mas parecia que não viam o ioio ou o barbante. Eu tentava, mas não conseguia falar com eles, pedir a eles ajuda, e eu continuava tentando desesperadamente respirar. Uma hora, sufocando, fiz um esforço e acabei tocando (acho) no braço do homem. Ele olhou para a mulher e disse que algo havia se desprendido... E ele mexeu na minha boca. E mexeu no que eu achava que era um barbante...

Angustiante, não é? Pois, este foi um dos pesadelos que tive quando estava em coma e lutava contra uma infecção generalizada (que começou nos pulmões) e um choque séptico. Não era e era sonho que eu sufocava e que havia água, muita água... Lembro muito bem da sensação de absoluta impotência diante de um menino, de um ioio e de uma sufocante brincadeira...